segunda-feira, 26 de outubro de 2015

ataque agudo de inveja do miocárdio

Tive uma súbita crise de inveja! Todos a minha volta estão apaixonados, insuportavelmente apaixonados! Até mesmo meus amigos amargos e sátiros contumazes desfilam pelos corredores com aquele riso bobo olhando as mensagens que chegam no celular. Tento despertá-los, à força chamo-os à razão, esfrego-lhes as coisas mesquinhas da vida, um crime, uma negociata! Olham-me num relance de consciência, algo que dura milésimos de segundos para logo em seguida cairem de novo naquele estado patético - estado esse, ressalte-se, do qual saí (saí ?) há pouco menos de um mês. 
A inveja, conforme Sebastián de
 Covarrubias, gravura século 16
egenda
Homens e mulheres das mais variadas idades, etnias, profissões, posição social e importância, todos, todos enredados. Alguns deles numa rede invisível, juras de amor depositadas no inconsciente coletivo do icloud. Juras de amor assépticas, que nunca sentiram o gosto da saliva do outro, juras de amor inodoras! Como é possível morrer-se de amor sem nunca ter cravado os dentes no outro, sem nunca ter se nauseado com seu hálito de vinho dormido? 
Invejas minhas tão densas que gosto mais de Iago que do mouro! Eu também bem que podia arrumar um amor internético, desses compostos de bites, e não de espermatozóides, mas...mas esses amores já me custaram horas acordada, horas longe da rua, do pingo de luz pendurado na ponta da folha de samambaia lá fora,bem lá fora de mim! Tudo desculpas minhas, bem sei! porque nem todos ficam só nos beijos de silício. Algumas dessas paixões evoluem do touch para o toque. E, para dilacerar ainda mais meu peito, há os que andam de mãos dadas a minha frente! 
Um acinte, um insulto gente apaixonada em plena luz do dia, gente trocando carícias com o sol a pino e no ponto de ônibus e ainda por cima com mais de cinquenta...onde é que esse mundo vai parar?!
Se eu pudesse comer essa minha inveja e excretar flores, haveria miosótis e camélias e rosas e cravos e jasmins e orquídeas e maria-sem-vergonha e hibiscos cobrindo toda área que vai dos lençóis maranhenses aos pampas sem deixar um centímetro de terra a mostra! Por favor, caros amantes, seres apaixonados, mantenham uma distância segura até isso tudo passar (pode ser que nunca passe!).
(t/c)

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