Meu pai gostava de contar histórias enquanto a gente jantava. Eram outros tempos, não tínhamos televisão, a gente jantava junto, os meninos nem sempre, porque faziam ginásio à noite. Ele chegava, eu ia lá puxar a botina do pé dele e tirar os pedacinhos de cimento que grudavam em seus cabelos. Depois me sentava no degrau da porta da cozinha e o esperava sair do banho. A história começava assim que punha o prato na mesa e, entre uma garfada e outra, as complicações do enredo. No momento mais tenso, o xerife pronto para sacar sua arma, um pedaço de carne interrompia a narrativa, os olhos dele se divertiam com minha cara de impaciência e curiosidade. Eu esperava a hora ensaiada em que o bandido ia cair duro no chão e todas as vezes eu me assustava com o tapa que ele dava na mesa para simular o tiro e o baque seco.
Numa prateleirinha, no canto da cozinha, ficavam os livros de "farveste", como ele gostava de dizer, e eram muitos. Eu amava ver as capas coloridas, imaginar as histórias que eram contadas ali dentro. Numa das capas, o moço segurava as rédeas de um cavalo bravo que ameaçava derrubar a mocinha. O vestido dela era de um tom de rosa quase lilás, nos meus sonhos, me via vestida assim. Voava no balanço como se abaixo dos meus pés existisse uma pradaria imensa e um sobrado de madeira lá longe, onde morávamos todos nós.
Quando a televisão chegou em casa, eu já devia ter uns oito ou nove anos e a primeira imagem que vi, depois dos chuviscos habituais, foi a abertura da novela Mulheres de Areia. Aquilo era um assombro, a mulher correndo na praia, eu antes nunca tinha visto o mar! No começo, meu pai ficava lá na mesa da cozinha com seus livros e o rádio ligado, minha mãe, eu e algumas mulheres da vizinhança nos apertávamos na pequena sala e só conversávamos quando apareciam os reclames. Depois de um tempo, rendemo-nos todos a Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes. Depois da novela, havia a roda de discussão, todos tentando adivinhar o que aconteceria, jovens e velhos conjecturando sobre o destino de Ruth e Rachel, de Carlão, Salviano e Lucinha. Crescemos com a presença deles, como se fossem parentes, gente de casa. Hoje, se eu encontrar a Regina Duarte no aeroporto, por exemplo, certamente me sentarei com ela e perguntarei se ela se lembra de quando o Natal foi na casa de uma tia em Araraquara. Ela vai se lembrar, com certeza.
Mas houve uma época em que ficar sem energia elétrica tinha virado quase uma rotina, nesses dias, nessas noites, acendíamos as velas, nos sentávamos na sala olhando para a TV desligada e, na semi obscuridade, meu pai começava a contar suas velhas histórias, dos tempos em que morara em São Paulo, das casinhas da Vila Maria, da praça Silvio Romero, no Tatuapé, dos passeios no vale do Anhangabaú e no Mappin e do seu terno de linho branco e de como ele ficou manchado porque uma mangueira de óleo escapou de um velho caminhão no exato momento em que ambos se cruzaram na esquina...


