me perguntaram dia desses o que eu gostaria de ser, nem pensei e já respondi: matadora de aluguel. todos riram, eu ri. parecia, de fato, piada, mas não era. se eu pudesse, se tivesse os meios, o treinamento, se eu não fosse presa ou não tivesse de lidar com a culpa, eu certamente mataria pessoas. na minha lista há vários candidatos, de todos os tipos, cores e sabores. a motivação? um mau comportamento de alguém, uma fala insolente e descuidada, nada muito grave. não haveria tempo de! há, por exemplo, um colega de trabalho que em tudo me exaspera. eu trabalho no sexto andar, ele no sétimo. não sei por que cargas d'água nos encontramos sempre no elevador. já tentei mudar horários, espreitar o corredor, já entrei no elevador vazio e de repente lá estava ele. aquele risinho que levanta uma pequena porção do lábio, a cabeça levemente inclinada, um balancinho de corpo: hehehe, nos encontramos novamente, parece que fomos feitos um para o outro! me obrigo a sorrir angelicalmente, não quero que as câmeras captem qualquer sinal de minhas antipatias, é certo que precisarei de um álibi, de parecer inocente e distante quando a notícia se espalhar pelos departamentos: soube que o freitas morreu? um assalto, tiro a queima roupa, parece que tentou reagir. eu, consternada: ó que infelicidade, ainda ontem tomei o elevador com ele e tivemos uma conversa muito agradável, era tão animado ele! o mesmo ocorreria com minha vizinha, com ela e a filha, na verdade, uma é extensão da outra. essas eu mataria numa emboscada, ambas amam o obscurantismo, de todas as denominações. deixaria escapar algo sobre uma tal cartomante infalível na conversa com a outra vizinha com quem troco três ou quatro palavras enquanto descemos para o estacionamento ou quando juntas atravessamos a rua para ir até o supermercado. ela até me considera sua amiga. elas se visitam, tomam café, comem bolo de chocolate juntas. eu saberia quando e como iriam, o lugar é ermo, cercado de velhas mangueiras, eternamente em sombras. mataria a vizinha também, caso fosse junto. economia. mas nada, nada me impediria de acabar com o marido de minha irmã, um filhodaputazinho com formação medíocre e muito talento para medalhão, aliás, a mediocridade nata o qualifica mais do que ninguém para isso. é de uma amabilidade encenada, uma vozinha macia e sempre baixa, aquela mãozinha de quem nunca descascou a própria laranja, as unhas feitas, base fosca, terno azul marinho e gravata de poás, quando sorri as bochechinhas se levantam e formam uma bolinha rosa de cada lado, nunca disse nada que preste, nada profundo, nada de verdade engraçado, nada de verdade triste. o senhor amenidades morreria atropelado por um trem de carga logo depois de comer uma coxinha de bueno de andrada. a lista é grande, eu sou pouca. mas só de poder lhes contar isso me sinto mais animada, mais motivada, só para usar uma dessas palavrinhas bestas e vazias que meus pares adoram repetir nos cursos que somos obrigados a fazer toda santa última sexta do mês. começarei organizando-os por ordem de urgência - quem matar primeiro - e ordem de relevância - quem é o mais ridículo de todos. sem dúvidas há uma inclinação adolescente nisso, assunto para atormentar meu terapeuta semana que vem. domingo, 2 de dezembro de 2018
Profissão: matadora de aluguel
me perguntaram dia desses o que eu gostaria de ser, nem pensei e já respondi: matadora de aluguel. todos riram, eu ri. parecia, de fato, piada, mas não era. se eu pudesse, se tivesse os meios, o treinamento, se eu não fosse presa ou não tivesse de lidar com a culpa, eu certamente mataria pessoas. na minha lista há vários candidatos, de todos os tipos, cores e sabores. a motivação? um mau comportamento de alguém, uma fala insolente e descuidada, nada muito grave. não haveria tempo de! há, por exemplo, um colega de trabalho que em tudo me exaspera. eu trabalho no sexto andar, ele no sétimo. não sei por que cargas d'água nos encontramos sempre no elevador. já tentei mudar horários, espreitar o corredor, já entrei no elevador vazio e de repente lá estava ele. aquele risinho que levanta uma pequena porção do lábio, a cabeça levemente inclinada, um balancinho de corpo: hehehe, nos encontramos novamente, parece que fomos feitos um para o outro! me obrigo a sorrir angelicalmente, não quero que as câmeras captem qualquer sinal de minhas antipatias, é certo que precisarei de um álibi, de parecer inocente e distante quando a notícia se espalhar pelos departamentos: soube que o freitas morreu? um assalto, tiro a queima roupa, parece que tentou reagir. eu, consternada: ó que infelicidade, ainda ontem tomei o elevador com ele e tivemos uma conversa muito agradável, era tão animado ele! o mesmo ocorreria com minha vizinha, com ela e a filha, na verdade, uma é extensão da outra. essas eu mataria numa emboscada, ambas amam o obscurantismo, de todas as denominações. deixaria escapar algo sobre uma tal cartomante infalível na conversa com a outra vizinha com quem troco três ou quatro palavras enquanto descemos para o estacionamento ou quando juntas atravessamos a rua para ir até o supermercado. ela até me considera sua amiga. elas se visitam, tomam café, comem bolo de chocolate juntas. eu saberia quando e como iriam, o lugar é ermo, cercado de velhas mangueiras, eternamente em sombras. mataria a vizinha também, caso fosse junto. economia. mas nada, nada me impediria de acabar com o marido de minha irmã, um filhodaputazinho com formação medíocre e muito talento para medalhão, aliás, a mediocridade nata o qualifica mais do que ninguém para isso. é de uma amabilidade encenada, uma vozinha macia e sempre baixa, aquela mãozinha de quem nunca descascou a própria laranja, as unhas feitas, base fosca, terno azul marinho e gravata de poás, quando sorri as bochechinhas se levantam e formam uma bolinha rosa de cada lado, nunca disse nada que preste, nada profundo, nada de verdade engraçado, nada de verdade triste. o senhor amenidades morreria atropelado por um trem de carga logo depois de comer uma coxinha de bueno de andrada. a lista é grande, eu sou pouca. mas só de poder lhes contar isso me sinto mais animada, mais motivada, só para usar uma dessas palavrinhas bestas e vazias que meus pares adoram repetir nos cursos que somos obrigados a fazer toda santa última sexta do mês. começarei organizando-os por ordem de urgência - quem matar primeiro - e ordem de relevância - quem é o mais ridículo de todos. sem dúvidas há uma inclinação adolescente nisso, assunto para atormentar meu terapeuta semana que vem. quinta-feira, 29 de novembro de 2018
as sanguessugas
acabara de tomar banho, daqueles em que se demoram minutos que parecem horas. a água quente levando os vestígios das últimas infâmias. era bom ficar ali, o banheiro era vasto, os perfumes bons, havia quase isolamento acústico, do xampu ao óleo de banho, ia-se de Berlim a Tóquio e voltava-se a são joão del rei por conta do sabonete de ervas comprado na pharmácia, cujo dono deve ter participado da conjuração.
passar a mão molhada no espelho, olhar-se com atenção, verificar se havia ficado algo, uma marca do teor nauseabundo da última reunião. as infâmias ouvidas calada não haviam sumido. era difícil tirá-las. agarravam-se à pele, inchavam, parecia que andava com enormes bolsas colostômicas penduradas. tinha medo de que não a deixassem entrar onde quer que fosse, preferiu ficar em casa. o mundo reduzido a filmes, de todos os tipos, a séries tão velozes quanto incongruentes. andava pela casa, descalça no piso gelado, movia-se devagar, tinha medo de acordar as sanguessugas, de deixá-las iradas. desceu até o jardim, leria um pouco, algo limpo e delicado. não se demorou, as sanguessugas não gostaram do texto, davam ao sangue certo gosto diáfano que não toleravam. buscou um e mais outro livro, tentou vários, mas elas, iradas, sugavam mais forte, sossegaram quando viram ema, entraram numa espécie de hibernação enquanto ela definhava com o veneno. agora era tomar cuidado, mudar de obra como quem comete um engano e não tem mais como voltar atrás, ó, eu bem que tentei, mas quando vi, já estava no meio, não tive como evitar. e foi assim, fazendo o caminho inverso de dante, nível por nível, que conseguiu aquela sensação única de bem estar, o ínfimo segundo antes do gozo, estava lá em estado de poesia, veneno atroz para os parasitas. quando acordaram, mortas de fome, ela não estava mais lá.
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