quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não sei mais como falar com as pessoas!

Acho que ano a ano venho perdendo a capacidade de manter um diálogo, uma conversa de dez minutos e já não tenho muito mais o que falar. Há momentos que até forço um silêncio constrangedor para que não haja a menor possibilidade de se retomar a conversação. Porque, convenhamos, há assuntos que já nascem mortos, há opiniões que não nos interessam, por mais pertinentes que sejam!
Eu, por exemplo, não quero mais falar sobre a crise hídrica, econômica, política, sobre Proust, Nietzsche ou Michelangelo, muito menos do novo filme do Tarantino, da estética pós moderna e dos macaquinhos, eu não quero falar de nada que valha a pena, porque eu simplesmente não quero mais falar!
Me internar num mosteiro carmelita, fazer voto de silêncio por uns dois anos, até desaprender alguns pontos de articulação é meu sonho de consumo. Passar meses sem ouvir a tagarelice humana, sem prestar atenção aos argumentos, às figuras de construção, à coesão e à coerência, a concordância! Brecar na mente todos os mapas, todos os caminhos que levam à interpretação. 

Se fosse possível, gostaria apenas de ouvir apenas o barulho das cerdas da vassoura de piaçava varrendo folhas no pátio, observar a coagulação lenta e branda do leite, plantar salsinha e cebolinha no canteiro fofo de terra estercada, deixar escoar os dias sem me preocupar com os clichês na composição do meu texto, olhar para uma página em branco e ver apenas isso: branco!
Mas as pessoas são insolentes, desrespeitosas, não nos olham nos olhos e começam a debulhar letras. Falam do preço do combustível, dos transgênicos e transgêneros, da manteiga e da margarina, do óleo de coco...não escapa nem o Francisco! 
Tenho a alma riscada com letras erráticas, letras que se agrupam aleatoriamente como aquelas bolinhas de mercúrio espalhadas pelo chão quando quebramos um termômetro, letras que em dias quentes procuram as paredes frias feitas de pedra dos monastérios, letras que podiam muito bem se desletralizarem.
Sei que é um disparate pregar o silêncio usando palavras, é mais absurdo ainda pensar que mesmo o silêncio é também uma palavra. E, quando enfim essas vozes de fora calam, as de dentro se amotinam e berram sem parar. Resta-me a ilusão de que os minutos passem rápido, bem rápido!
(t/c)

domingo, 22 de novembro de 2015

"eu sei como pisar no coração de uma mulher...já fui mulher eu sei..."

Para pisar no coração de uma mulher,
sapatilhas de arame,
o balé belo infame...
Já fui mulher eu sei,
já fui mulher eu sei! (Chico César)
Essa bela música acordou-me hoje pela manhã, acordes vindos de alguma janela vizinha, notas que penetraram a veneziana e caíram na fronha do meu travesseiro. Demorei aqueles milésimos de segundos para distinguir as palavras em meio ao sono e ao ruído que reinava além da minha masmorra, mas elas foram chegando e, quando dei por mim, estava na cozinha fazendo café...já fui mulher eu sei!
Assisti a uma bobagem qualquer na televisão, tirei o esmalte dos pés, lixei as unhas e vi as notícias. Uma amiga de longe manda oi, outra de perto bate à porta, um zumbido nos ouvidos, uma leve tontura resultante da tequila de dois dias antes. Eu já havia renovado o seguro? pagado a faxineira? levado a cria à escola? eu já tinha escovado os dentes? já fui mulher eu sei...já fui mulher eu sei!
No shopping atulhado, crianças esgoelando, mães de olhar vazio, pais conectados às telas das inúmeras tevês onde passava um jogo qualquer, um homem dando um safanão na sua esposa em frente a todos, sem nenhum constrangimento, ela pedindo calma, eu querendo um café...já fui mulher eu sei!
Lembrei-me de quando havia amado, dos momentos de completude e crença, da beleza dos movimentos desconexos e espasmódicos, do sorriso fácil vindo da barriga. Lembrei-me de que havia um nome em particular, aliás, nome, sobrenome e codinome - coisas tolas e doces de amantes - e de como esse nome foi encurtando...em um mês esgarçou-se o tecido fino da intimidade, perdeu-se o apelido, mais quinze dias o sobrenome, com medo de que eu lhe desse mais importância que a decência permitia, reduzi-o a uma só letra, urgência em desparticularizar. O desamor é isso: um coração pisoteado por coturnos, sapatilhas de arame e alpercatas de aço. E nem é necessário ser mulher para sentir isso, embora não haja criatura que saiba melhor o que é angustiar-se. Um homem pode ter seu coração atravessado por um salto agulha, macerado por tamancos de madeira, mas essa dor de ser tratada como menos, no contexto em que vivemos, é uma dor feminina, é uma dor só de quem sabe o que é ser mulher...eu sei?!
(t/c) 

domingo, 8 de novembro de 2015

velhos hábitos que me habitam

Decidi não mais escovar os dentes como de costume. Sou destra, o que quase me obriga a começar sempre pelo lado esquerdo. Cansei-me disso! Agora, em frente ao espelho, digo que vou começar pelo lado direito, o que me obriga a uma manobra meio desengonçada, meu cérebro de cobaia parece não entender que começamos a escovação pela direita. O experimento já dura uma semana e tem me incomodado muito. 

Por que decidi fazer isso? acho que ouvi em algum lugar que os destros sempre fazem dessa forma, então, num ataque de rebeldia, resolvi mudar! Já que não posso mudar um monte de outras coisas, mudo o que posso, como posso. Se vai fazer diferença? sei lá! é bem provável que não, aliás, é mais certo que não, mas, de qualquer forma, é engraçado ouvir o diálogo interno, as vozes num processo esquizo paranóide se digladeando, a mais normótica pedindo para eu parar com a experiência "inócua e ridícula" e a mais bicho grilo unespiana de bolsa de crochê e chinelo de couro atalhando: "Vamo tomá o poder! Abaixo o sistema de escovação ritmada, mais espaço para os molares da banda esquerda!"


Quase me mato de tanto rir. Acho que para mim é mesmo o fim do túnel...sem luz.

Nesses tempos de rebeldia típica da envelhescência, também resolvi alterar minha assinatura, foi uma mudança quase imperceptível, porque se mudasse muito teria de ir ao banco, ao cartório, ao RH, ao quinto círculo infernal e aí não dou conta. A alteração foi só para me convencer de que tenho esse poder, de que posso mudar o que eu quiser e quando quiser, é só uma elevadinha, uma cúspide numa onda antes redondinha. Dá até uma certa emoção assinar o livro ponto pela manhã e à noite, minutos antes eu me lembro da marca secreta e lá vou eu para a grande sala, passos atentos descendo as escadas (quase vejo aquele carrinho de bebê desgovernado dos Intocáveis à minha frente, mas não é, é só o menino levando as correspondências!), plano americano mostrando-me ao abrir a porta, câmera subjetiva encarando-me espelho, e o traço, minha letra, a indelével marca no papel. Uma curva mais bicuda na minha assinatura é o suficiente, cá dentro eu sinto que mudei algo.

Amanhã vou testar um novo método para lavar a louça, veremos o que rola!
(t/c)