Acho que ano a ano venho perdendo a capacidade de manter um diálogo, uma conversa de dez minutos e já não tenho muito mais o que falar. Há momentos que até forço um silêncio constrangedor para que não haja a menor possibilidade de se retomar a conversação. Porque, convenhamos, há assuntos que já nascem mortos, há opiniões que não nos interessam, por mais pertinentes que sejam!
Eu, por exemplo, não quero mais falar sobre a crise hídrica, econômica, política, sobre Proust, Nietzsche ou Michelangelo, muito menos do novo filme do Tarantino, da estética pós moderna e dos macaquinhos, eu não quero falar de nada que valha a pena, porque eu simplesmente não quero mais falar!
Me internar num mosteiro carmelita, fazer voto de silêncio por uns dois anos, até desaprender alguns pontos de articulação é meu sonho de consumo. Passar meses sem ouvir a tagarelice humana, sem prestar atenção aos argumentos, às figuras de construção, à coesão e à coerência, a concordância! Brecar na mente todos os mapas, todos os caminhos que levam à interpretação.
Se fosse possível, gostaria apenas de ouvir apenas o barulho das cerdas da vassoura de piaçava varrendo folhas no pátio, observar a coagulação lenta e branda do leite, plantar salsinha e cebolinha no canteiro fofo de terra estercada, deixar escoar os dias sem me preocupar com os clichês na composição do meu texto, olhar para uma página em branco e ver apenas isso: branco!
Mas as pessoas são insolentes, desrespeitosas, não nos olham nos olhos e começam a debulhar letras. Falam do preço do combustível, dos transgênicos e transgêneros, da manteiga e da margarina, do óleo de coco...não escapa nem o Francisco!
Tenho a alma riscada com letras erráticas, letras que se agrupam aleatoriamente como aquelas bolinhas de mercúrio espalhadas pelo chão quando quebramos um termômetro, letras que em dias quentes procuram as paredes frias feitas de pedra dos monastérios, letras que podiam muito bem se desletralizarem.
Sei que é um disparate pregar o silêncio usando palavras, é mais absurdo ainda pensar que mesmo o silêncio é também uma palavra. E, quando enfim essas vozes de fora calam, as de dentro se amotinam e berram sem parar. Resta-me a ilusão de que os minutos passem rápido, bem rápido!
(t/c)

