domingo, 6 de março de 2016

cumulunimbus



Eu mal podia ver as nuvens cinzentas, o terror se instalava quase imediatamente. Assim que saía de casa para ir à escola, olhava o céu, perscrutava a possibilidade de chuva, já sabia os nomes das nuvens, podia classificá-las quanto à aparência e altitude. Meu medo também era classificável, mas o critério era outro.Se fosse leve, podia resolvê-lo conversando com os bichos do quintal, um pouco mais tenso era caso de ficar sentada ao lado do forno à lenha, sempre aceso, medo paralisante só se resolvia metendo-me embaixo da cama, as mãos tapando os ouvidos. A chuva sendo branda, ficava eu na janela. A observação era necessária, uma forma de controle, podia ver a velocidade dos pingos, o tamanho deles. Trovões e raios me botavam entre o chão e o estrado. Ventos fortes, daqueles uivantes, faziam meu estômago doer. Os adultos ocupados recolhendo roupa, gaiolas, fechando janelas e portas. De vez em quando, o mais novo dos irmãos ficava lá comigo. Chegava rindo, me chamando de boba, mas também tinha medo. Acreditávamos que a casa ia cair sobre nós. As telhas portuguesas se soltavam fácil, o barulho delas tremendo era assustador. A chuva ia embora, aos poucos, eu saía do choque, de olhos ainda fechados procurava a parede e ia assim até a cozinha, onde todos, provavelmente, estariam. Contabilizados os danos, voltávamos ao comum das coisas.Lá fora, imensas poças da água, lama, um mini-riacho cortando meu quintal, flores e algumas frutas caídas no chão.
Eu vivia assombrada por tudo. O barulho das máquinas, a gargalhada das pessoas alegres,os parentes distantes e cheios de histórias, os narizes enormes e feios dos velhos, os cabelos compridos e esfiapados das mulheres crentes, os palhaços do cirquinho miserável que aparecia de vez em quando e até mesmo o coral da igreja me causavam desconforto. As escadas, as grandes escadas me deixavam inquieta. Ninguém percebia isso, todos só reparavam na minha magreza e palidez. Não sei como fui perdendo esses medos, mas me lembro que eu já os entendia como "coisas de criança" e que iam passar. Fui crescendo e aí caí da escada, quase me afoguei três vezes, um cachorro enorme me atacou na rua, um moleque e seus amigos me surraram na pracinha porque me confundiram com uma menina que riu dos óculos da irmã dele, meus colegas de trabalho tratavam-me com grosseria. Já beirando os trinta tive síndrome do pânico, não suportei a dureza do mundo acadêmico, estava novamente muito magra e pálida, o medo instalado nos ossos. O mergulho foi profundo, tão profundo que cheguei a algum lugar além do medo, na verdade, além de qualquer sentimento. Foram dois anos para voltar à superfície. 
Hoje, tantos anos depois, acordei de um sonho em que a menina estava na sua toca, protegendo-se da tempestade, e eu dizia para ela: Sossega, a casa não vai cair!