Diário de bordo: onze de outubro de dois mil e quinze!
Bem, faltam poucos meses para eu chegar aos cinquenta anos. Ainda criança eu dizia que não chegaria a ficar "tão" velha, que morreria antes. Agora não tenho mais tanta certeza! Aliás, quanto mais me aproximo da data mais acho que a minha profecia está furada. Naquela época, pessoas de cinquenta anos me pareciam absurdamente desgastadas. Acho mesmo que eram, pois o que faziam da vida as tias velhas que já haviam casado os filhos, que já embalaram os primeiros e rosados netos, que tiveram de chorar precocemente a morte mofina do marido? A elas só sobravam a Congregação de Maria e os almoços aos domingo, quando as marias se misturavam a joanas e malvinas e iam para a cozinha picar tomate e cheiro-verde.
Uma dessas tias, mariana também, que já era "bem velha" na época, ainda está viva hoje, aos 96 anos e, estranhamente, agora ela até me parece menos velha!
Pois bem, acho que não vou morrer tão "jovem", afinal, isso é regalia de alguns astros de cinema, de cantoras pop, de cientistas e escritores de renome. Creio até que, se eu conseguir permanecer no ostracismo por mais um bom tempo, talvez a ceifadora não note a minha existência e vai me deixando ficar. Enquanto isso, vou indo, vou aprendendo, vou mudando o que dá, vou me acostumando com o que não dá. Nos dia bons, fico rindo de mim, encho-me de afagos, me consolo com coisas belas, fúteis, inúteis. Nos dias maus, neurose com faca entre dentes, vou me cortando, ferindo-me com precisão e vileza e me deixo afundar numa lagoa plácida de autocomiseração. Isso também não dura muito, porque logo tenho algo para fazer, meu escasso tempo para o ócio não me permite sofrer conscientemente por muito tempo. E a inconsciência, como todos sabem, tem um empuxo fabuloso...qualquer coisa fora nos desconecta do centro de gravidade...acho que já comecei a me perder...do que mesmo estávamos falando?
(t/c)
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