domingo, 2 de dezembro de 2018

Profissão: matadora de aluguel

me perguntaram dia desses o que eu gostaria de ser, nem pensei e já respondi: matadora de aluguel. todos riram, eu ri. parecia, de fato, piada, mas não era. se eu pudesse, se tivesse os meios, o treinamento, se eu não fosse presa ou não tivesse de lidar com a culpa, eu certamente mataria pessoas. na minha lista há vários candidatos, de todos os tipos, cores e sabores. a motivação? um mau comportamento de alguém, uma fala insolente e descuidada, nada muito grave. não haveria tempo de! há, por exemplo, um colega de trabalho que em tudo me exaspera. eu trabalho no sexto andar, ele no sétimo. não sei por que cargas d'água nos encontramos sempre no elevador. já tentei mudar horários, espreitar o corredor, já entrei no elevador vazio e de repente lá estava ele. aquele risinho que levanta uma pequena porção do lábio, a cabeça levemente inclinada, um balancinho de corpo: hehehe, nos encontramos novamente, parece que fomos feitos um para o outro! me obrigo a sorrir angelicalmente, não quero que as câmeras captem qualquer sinal de minhas antipatias, é certo que precisarei de um álibi, de parecer inocente e distante quando a notícia se espalhar pelos departamentos: soube que o freitas morreu? um assalto, tiro a queima roupa, parece que tentou reagir. eu, consternada: ó que infelicidade, ainda ontem tomei o elevador com ele e tivemos uma conversa muito agradável, era tão animado ele! o mesmo ocorreria com minha vizinha, com ela e a filha, na verdade, uma é extensão da outra. essas eu mataria numa emboscada, ambas amam o obscurantismo, de todas as denominações. deixaria escapar algo sobre uma tal cartomante infalível na conversa com a outra vizinha com quem troco três ou quatro palavras enquanto descemos para o estacionamento ou quando juntas atravessamos a rua para ir até o supermercado. ela até me considera sua amiga. elas se visitam, tomam café, comem bolo de chocolate juntas. eu saberia quando e como iriam, o lugar é ermo, cercado de velhas mangueiras, eternamente em sombras. mataria a vizinha também, caso fosse junto. economia. mas nada, nada me impediria de acabar com o marido de minha irmã, um filhodaputazinho com formação medíocre e muito talento para medalhão, aliás, a mediocridade nata o qualifica mais do que ninguém para isso. é de uma amabilidade encenada, uma vozinha macia e sempre baixa, aquela mãozinha de quem nunca descascou a própria laranja, as unhas feitas, base fosca, terno azul marinho e gravata de poás, quando sorri as bochechinhas se levantam e formam uma bolinha rosa de cada lado, nunca disse nada que preste, nada profundo, nada de verdade engraçado, nada de verdade triste. o senhor amenidades morreria atropelado por um trem de carga logo depois de comer uma coxinha de bueno de andrada. a lista é grande, eu sou pouca. mas só de poder lhes contar isso me sinto mais animada, mais motivada, só para usar uma dessas palavrinhas bestas e vazias que meus pares adoram repetir nos cursos que somos obrigados a fazer toda santa última sexta do mês. começarei organizando-os por ordem de urgência - quem matar primeiro - e ordem de relevância - quem é o mais ridículo de todos. sem dúvidas há uma inclinação adolescente nisso, assunto para atormentar meu terapeuta semana que vem. 


2 comentários:

  1. Uma delicia de leitura, se pudesse escolher ser um morto, morreria como esse nas linhas férreas com a boca cheia de cozinha de Bueno de andAndr

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