quinta-feira, 29 de novembro de 2018

as sanguessugas

acabara de tomar banho, daqueles em que se demoram minutos que parecem horas. a água quente levando os vestígios das últimas infâmias. era bom ficar ali, o banheiro era vasto, os perfumes bons, havia quase isolamento acústico, do xampu ao óleo de banho, ia-se de Berlim a Tóquio e voltava-se a são joão del rei por conta do sabonete de ervas comprado na pharmácia, cujo dono deve ter participado da conjuração. 
passar a mão molhada no espelho, olhar-se com atenção, verificar se havia ficado algo, uma marca do teor nauseabundo da última reunião. as infâmias ouvidas calada não haviam sumido. era difícil tirá-las. agarravam-se à pele, inchavam, parecia que andava com enormes bolsas colostômicas penduradas. tinha medo de que não a deixassem entrar onde quer que fosse, preferiu ficar em casa. o mundo reduzido a filmes, de todos os tipos, a séries tão velozes quanto incongruentes.  andava pela casa, descalça no piso gelado, movia-se devagar, tinha medo de acordar as sanguessugas, de deixá-las iradas. desceu até o jardim, leria um pouco, algo limpo e delicado. não se demorou, as sanguessugas não gostaram do texto, davam ao sangue certo gosto diáfano que não toleravam. buscou um e mais outro livro, tentou vários, mas elas, iradas, sugavam mais forte, sossegaram quando viram ema, entraram numa espécie de hibernação enquanto ela definhava com o veneno. agora era tomar cuidado, mudar de obra como quem comete um engano e não tem mais como voltar atrás, ó, eu bem que tentei, mas quando vi, já estava no meio, não tive como evitar. e foi assim, fazendo o caminho inverso de dante, nível por nível, que conseguiu aquela sensação única de bem estar, o ínfimo segundo antes do gozo, estava lá em estado de poesia, veneno atroz para os parasitas. quando acordaram, mortas de fome, ela não estava mais lá. 

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