domingo, 22 de novembro de 2015

"eu sei como pisar no coração de uma mulher...já fui mulher eu sei..."

Para pisar no coração de uma mulher,
sapatilhas de arame,
o balé belo infame...
Já fui mulher eu sei,
já fui mulher eu sei! (Chico César)
Essa bela música acordou-me hoje pela manhã, acordes vindos de alguma janela vizinha, notas que penetraram a veneziana e caíram na fronha do meu travesseiro. Demorei aqueles milésimos de segundos para distinguir as palavras em meio ao sono e ao ruído que reinava além da minha masmorra, mas elas foram chegando e, quando dei por mim, estava na cozinha fazendo café...já fui mulher eu sei!
Assisti a uma bobagem qualquer na televisão, tirei o esmalte dos pés, lixei as unhas e vi as notícias. Uma amiga de longe manda oi, outra de perto bate à porta, um zumbido nos ouvidos, uma leve tontura resultante da tequila de dois dias antes. Eu já havia renovado o seguro? pagado a faxineira? levado a cria à escola? eu já tinha escovado os dentes? já fui mulher eu sei...já fui mulher eu sei!
No shopping atulhado, crianças esgoelando, mães de olhar vazio, pais conectados às telas das inúmeras tevês onde passava um jogo qualquer, um homem dando um safanão na sua esposa em frente a todos, sem nenhum constrangimento, ela pedindo calma, eu querendo um café...já fui mulher eu sei!
Lembrei-me de quando havia amado, dos momentos de completude e crença, da beleza dos movimentos desconexos e espasmódicos, do sorriso fácil vindo da barriga. Lembrei-me de que havia um nome em particular, aliás, nome, sobrenome e codinome - coisas tolas e doces de amantes - e de como esse nome foi encurtando...em um mês esgarçou-se o tecido fino da intimidade, perdeu-se o apelido, mais quinze dias o sobrenome, com medo de que eu lhe desse mais importância que a decência permitia, reduzi-o a uma só letra, urgência em desparticularizar. O desamor é isso: um coração pisoteado por coturnos, sapatilhas de arame e alpercatas de aço. E nem é necessário ser mulher para sentir isso, embora não haja criatura que saiba melhor o que é angustiar-se. Um homem pode ter seu coração atravessado por um salto agulha, macerado por tamancos de madeira, mas essa dor de ser tratada como menos, no contexto em que vivemos, é uma dor feminina, é uma dor só de quem sabe o que é ser mulher...eu sei?!
(t/c) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário